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domingo, 27 de março de 2011

Meu Bondoso Preto Velho!


Aqui estamos, agradecidos, aguardando sua benção.

Quantas vezes com a alma ferida, com o coração irado, com a mente entorpecida pela dor da injustiça clamamos por vingança, e Tu, oculto lá no fundo do nosso Eu, com bondade compassiva nos sussurrava: ESPERANÇA.

Quantas vezes desejamos romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho, dente por dente, e Tu, escondido em nossa mente, nos dizias simplesmente:

"Sei que fere o coração a maldade e a traição, mas, responder com ofensas, não lhes trará a solução. Pára, pensa, medita e ofereça o perdão. Eu também sofri bastante, eu também fui humilhado, eu também me revoltei e também fui injustiçado.

Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado, nenhuma oportunidade eu tive.
Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me dizia, que eu nunca mais veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do leão, minha raça de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua, fria, acorrentada num infecto porão.

Um ódio intenso o meu peito atormentava, por que OIÀ não mandava uma grande tempestade? Que Xangô com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara. E Iemanjá, onde estava que nossa desgraça não via, nossa dor não sentia, o seu peito não sangrava? Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia? Se Iemanjá ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam, a necessária vingança.

Porém, nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lançado, o meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro em brasa marcado.

Onde é que estava Ogum? Que aquela gente não vencia, onde estavam as suas armas, as suas lanças de guerra? Porém, nada acontecia, e a toda parte que olhava, somente um coisa via... terra.

Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados.

Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a colheita, que para nós era estafa, para o senhor era ouro.

Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia, que o nosso destino no fim não seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi olhava por mim...

Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou, e o preto se acabou...

Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perdão, os sofrimentos de outrora já não importam agora, por que nada foi em vão...

Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do perdão".

(adaptado do texto de Pai Ronaldo Linares)

2 comentários:

  1. Muito interessante esses esclarecimentos, assim nos mostra o quão nossas vidas são afortunadas ,pois vivemos num mundo que estamos aprendendo com as nossas diferenças e vemos que nada sofremos perto dos nossos antepassados que sofreram muito e ainda assim nos ensinam a sermos humildes e caridosos. jaqueline Deutschmann

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  2. Isso mesmo, Jaque, ainda temos muito a aprender! Bj

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