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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Pelo amor, ou pela dor

A Cris, como costumamos chamá-la carinhosamente, chegou à Umbanda, pela dor.
Conforme ela mesmo conta no texto abaixo, quando nossa filha Débora a convidou para conhecer nosso trabalho e disse que era Umbanda, ela foi enfática em recusar o convite: "neste tipo de lugar eu não vou"!
Precisou conhecer o Cumpadre (Exu Caveira que trabalha com o Ricardo) em uma noite bastante tumultuada, para criar coragem e encontrar seu caminho.
Muita gente chega num Terreiro de Umbanda pela dor. 
Alguns recusam o auxílio, por medo, preconceito, ignorância...
Ela aceitou, assim como as amigas que estavam com ela naquela noite, e hoje trabalham e/ou frequentam nossa Casa. 
Segue o texto:

" Na minha vida começou muito cedo, ainda pequena já enxergava e ouvia “eles”. 
Quando era criança, levava muitos sustos e minha mãe sempre ao meu lado tentando me acalmar quando o mundo espiritual se tornava visível aos meus olhos. 
Ela nunca negou, não incentivava, mas não me punia ou criticava. 
Certo dia me levou num atendimento que era realizado na Igreja do Rosário. A entrada era ao lado da Igreja e me lembro bem de uma senhora muito simpática que me recebeu. Só de lembrar me dá vontade de chorar. Minha mãe ficou na sala de espera e eu entrei sozinha, já era uma mocinha e minha mãe dizia que era pra eu me sentir a vontade, que estaria ali ao lado me esperando. Não me lembro dos conselhos, mas lembro que saí muito melhor e mais segura. 
Durante anos, toda vez que ia ao centro de Porto Alegre passava naquela Igreja para agradecer. Ainda gosto muito de ir lá, ficar sentada sentindo aquela energia tão serena no meio de tanta correria do centro.
Por volta dos 20 anos, numa noite em minha casa com uns amigos bebendo cerveja e botando a conversa fora, sentada do lado de fora da casa de frente para a porta, enxerguei um homem dentro de minha casa e o seu sorriso era horripilante, me lembro do calafrio. 
Resumindo, “este” passou a me acompanhar em festas, sala de aula, trabalho, enfim tudo. 
Me acordava à noite, batia portas e ligava a TV. Aí, comecei a me irritar e então interagia, pedia pra ele ir dormir que não era hora, que fosse descansar porque eu estava na festa, que não fizesse barulhos porque eu não gostava. Rezava muuuuuito, quase um plantão de reza! Me judiou um pouco... nesta fase eu bebia mais que o meu normal quando saia com minhas amigas. Certa vez até fumei, e não sou fumante não!
Frequentei algumas casas Kardecistas e estudei durante 8 anos o espiritismo, mas faltava alguma coisa. Não era aquilo que me satisfazia. Não entendia algumas situações e o Kardec não supria essa necessidade. O estudo era uma delícia e me encantavam os romances e a forma como me identificava com algumas histórias, mas ainda não era isso!
Então, conheci uma menina que me disse assim: Meu pai atende! Tem uma casa de Umbanda! E eu logo retruquei: Ah não! Nesse tipo de lugar não vou! Nem pensar! 
Foram meses para a Cândida, o Ricardo e a Débora me convencerem que não estavam me enganando! Opa! Volta um pouquinho!
Um dia tomei coragem e disse a Débora que gostaria de ir prosear com o pai dela! - Que medo!

          Congá improvisado na sala do apartamento
Chegando lá recebi um abraço e muitos sorrisos! O lugar era pequeno e aconchegante! Me senti abraçada pela energia do lugar! Iniciaram as rezas e cantos e... Meu Deus ele está incorporado! Agora é que eu corro e vou embora daqui! Que nada, ele virou, me abraçou e abençoou! Daí pra frente cada visita era de horas e horas! Meu amigo Pai Joaquim de Cambinda ia abrindo meus olhos para o mundo espiritual. Eu agora tinha respostas que sempre precisei. 
Vou contar a situação que passei na minha casa, logo em seguida que comecei a frequentar o apartamento destes novos amigos, onde Pai Joaquim atendia, antes na inauguração da nova casa.
Estava em casa com mais três amigas, tomando um bom vinho e degustando queijos. 
De repente, do nada, 'eu' pedi um cigarro.
-Tu não fuma! disse uma amiga
-Mas tô com vontade! Liga pra Débora, o número tá no meu celular! (eu, falando junto com 'aquele' que queria fumar)
-Ok, eu ligo, e digo o quê? - minha amiga, já preocupada.
-Então pessoal , como eu ia dizendo.... - 'ele' de novo.
E assim foi a noite, cheia de previsões!! Lembro apenas de algumas partes! 
Minha amiga, pobrezinha, sem saber como me ajudar, tentando me socorrer através das orientações que o Ricardo passava pelo telefone! 
Quando chegaram lá em casa, Ricardo e  Débora, na entrada do prédio, segundo relato do Ricardo, já era o Caveira! (Exu que trabalha com ele). Estava eu jogada na área de serviço, caída no chão, e em estado precário!
Foram HORAS de desobsessão! Acordei no outro dia que doía até o cabelo!
Resumi muuuito tá! Nem sei como trabalhei no outro dia! 
Então, à noite, lá me fui pro apartamento do Ricardo, conversar com Pai Joaquim e tentar entender alguma coisa do que tinha ocorrido na noite anterior! Quando cheguei, não entendi porque haviam chamado outros médiuns! 
Lembram daquele moço que aparecia pra mim, me acordava e tudo o mais? Pois é, lá chegou o moço através de um médium da casa. Todos choraram muito porque descobrimos que este na verdade fora meu pai em outra vida e me procurou durante muitas outras, agora que me encontrou queria ficar perto! Perguntei em meio a muitas lágrimas se me fazia beber e fumar e despencando num pranto incontrolável ele me respondeu que sim! A dor que senti no meu coração ao vê-lo tão perdido, tão sofrido... Precisando de ajuda e orientação! De abraço!Foi encaminhado e pude voltar a ter controle da minha vida! 



Foi assim que começou a minha caminhada!
Foi assim que cheguei à Umbanda e ao entendimento da minha mediunidade.
Hoje não acontecem mais os descontroles e as obsessões!
Hoje consigo “controlar” essa característica para o trabalho na casa do Pai Joaquim!
Minha família sabe que encontrei o lugar certo! 
A religião certa! 
E respeitam esta caminhada! 
Outro dia escrevo sobre como conheci meus protetores e iniciei meu trabalho espiritual!"


Cristiane Cardoso, médium da Casa.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mediunidade em crianças e adolescentes

Cada vez mais chegam a esta e a tantas outras casas espiritualistas, mães e pais aflitos, não sabendo como lidar com as manifestações de mediunidade de seus filhos.
São bebês que têm seu sono agitado e perturbado pelas energias desequilibradas da residência, que nitidamente enchergam os espíritos e se assustam.
São crianças de 6/7 anos que veem e ouvem espíritos que as ameaçam, lhes dando ordens do tipo: não coma nada que lhe ofereçam, não brinque com outras crianças, etc...
Outras, com 12/14 anos com um interesse acentuado em ler e aprender sobre as relações com o mundo espiritual, já sentindo as vibrações de seus protetores.
Adolescentes com o comportamento desequilibrado, depressivos, ansiosos, bipolares, com histórico de tentativas de suicídio e tantos outros diagnósticos médicos que os entopem de remédios sem que nenhuma melhora se apresente.
A esmagadora maioria dos que acreditam em interferência espiritual e aceitam as orientações, logo começam a ter suas energias equilibradas e passam a dar mais atenção a outras coisas além da matéria.
Em que idade se pode iniciar um trabalho mediúnico de caridade?
Depende principalmente da maturidade espiritual. Tem crianças de 12 anos mais interessada e mais equilibrada espiritualmente que muitos adultos que já participam de uma corrente mediúnica.
O primeiro passo é o aprendizado, sem pressa, pois quem decide a hora de começar é nosso Pai Maior.
E quando estiver pronto, será chamado para as lides espiritualistas, se for esta a sua missão.
Aos pais, um alerta: não ignorem os sinais que podem indicar mediunidade em seus filhos.
Por medo, ignorância, intolerância, podem estar contribuindo para retardar sua evolução e quem sabe agravar uma série de problemas de fácil solução.
Por outro lado, não pensem que todo e qualquer desequilíbrio comportamental é sinal de mediunidade.
Na dúvida, pergunte, pesquise, busque auxílio de quem conhece o assunto, não importa se um Centro Espírita ou um Terreiro de Umbanda.
Para aqueles mais temerosos em buscar ajuda nestas casas, existem muitos psicólogos e psiquiatras espíritas que da mesma forma podem dar uma orientação precisa sobre o assunto, aliando seu conhecimento médico científico ao conhecimento espiritual.
Mediunidade não é castigo nem privilégio.
Mediunidade é benção redentora que, quando bem orientada e utilizada, conduz à evolução.

Para quem tem maior interesse no assunto, neste link há mais informações:

http://mundoespiritualista.zip.net/arch2008-02-01_2008-02-29.html


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Quando o coração fala [3]

Conheci a Rose quando trabalhamos juntas em uma empresa de cobranças, aqui mesmo em Porto Alegre, há alguns anos. " Dois bicudos não se beijam ", diz o velho ditado, e era assim o nosso relacionamento profissional. Mas graças principalmente ao Pai Joaquim, conseguimos superar as diferenças e hoje ela é membro ativo da corrente mediúnica de nossa Casa.
Hoje passo a vocês um artigo que ela escreveu, sobre como caiu de pára-quedas por aqui e como está sendo seu aprendizado nesta seara. Segue:


" Em 2009 fiquei sabendo que o Pai Joaquim passaria a atender em outro endereço com um espaço específico para os trabalhos e por isso seria estendido o atendimento a um número maior de pessoas.
Nesse ano, graças a Deus, eu estava me sentindo bastante satisfeita com o rumo dos meus 44 anos de vida e já tinha pensado em achar uma forma de compartilhar minhas expectativas e experiências com as pessoas. Cheguei a participar de alguns projetos sociais, mas não me identifiquei com a maneira como eram conduzidos, quase sempre com um cunho político. Faltava aquele sentido de troca, de doação, de sentir que tinha contribuído com algo.
Sabendo da inauguração da CPJC me voluntariei, (cheia de medo de não corresponder às exigências) para ser ajudante da Cândida na organização do local, arrumando e distribuindo as fichas do passe, recebendo as pessoas, fazer o chá, essas coisas.
Achei que seria uma boa idéia ocupar essa vaga, pois incorporação era certo que não iria ocorrer. Nem de longe achava que seria possível e nem queria, pois a minha ignorância sobre esse assunto me trazia muitos medos (já tinha presenciado algumas desobsessões e ficava temerosa). Desde os meus 8 anos de idade que frequentava Centros Espíritas Kardecistas para tomar passe; fui a alguns Centros de Umbanda, Candomblé, Nação e nunca tive qualquer sensação de vibração. Senti algumas vezes um bem estar, um alívio, certa paz interior após receber o passe, mas ter a presunção de pensar em incorporar, isso não. 
Entrei para o 2º grupo de desenvolvimento  da casa, em maio de 2010 e lá pelo 15º dia senti que minha perna ficava enrijecida, em outra oportunidade o braço. Eu querendo cambonear, querendo conversar com as pessoas, atender as entidades e até ficava incomodada por não estar me sentido bem. Alguém disse brincando: teu braço e tua perna estão incorporados. Claro que devido ao meu senso de humor, levei na brincadeira. Já estava envolvida o suficiente para me sentir encantada com a possibilidade de tudo isso significar a presença de um protetor espiritual.
Um mês talvez após eu ter entrado para o grupo, que as manifestações espirituais deram início. Meu primeiro companheiro espiritual (não vou escrever protetor espiritual de propósito) se fez presente e era da linha dos Pretos Velhos. Ele chegou encantador, sorridente, tranquilo e misterioso. Não fez questão de dizer seu nome e ficava sorrindo cada vez que alguém perguntava. Teve a permissão imediata de Pai Joaquim para iniciar seus trabalhos com consultas e assim foi por um bom tempo.
O “meu preto” como eu costumava falar, estava dando consultas e tirando aos poucos minha insegurança em atender os consulentes (sim eu escrevi minha insegurança, por que nessa época tudo era processado na minha cabeça como se fosse eu a executora dos atendimentos). Levou um tempo para o “meu preto” me esclarecer que eu nada fazia e, portanto não deveria de ter receios, preocupações ou medos. Não sinto vergonha de lembrar e de dizer que meus pensamentos eram muito egoístas e por demais grandiosos, inflados pelo meu ego que despertava um encantamento ilusório de que dependia de mim tudo aquilo que ocorria durante os trabalhos. Claro que isso eu sentia antes das incorporações (eu, comigo mesma), pois era só o “meu preto” chegar para todo esse deslumbre se aquietar e me chamar para uma reflexão... 
Pois o “meu preto” me ensinou que mais do que endeusar um guia, um protetor, ou confeccionar guias fabulosas, ou ter um lugar de destaque para trabalhar, ou de usar roupas enfeitadas, o mais importante de tudo isso era o sentimento pelo qual eu frequentava a casa, pois essa era a chave para eu começar a entender o trabalho e receber os ensinamentos que viriam através dos amigos espirituais.
Pois bem, o “meu preto” um belo dia se identificou como Nêgo Benedito, frisou que não era Pai Bendito e que poderia ser chamado só de Nêgo. Nesse tempo todo que ele se fez presente, me ensinou através das consultas. Hoje vejo que muito do que eu precisava entender, ele me ensinou enquanto trabalhava. Nos muitos questionamentos que eu fazia, era sempre através de um atendimento que eu achava as respostas. Ele sempre só dizia: pare, observe, ouça o que é dito e tire suas conclusões. Só que eu custei a entender que era via atendimentos aos consulentes que eu teria as respostas e ficava me debatendo tentando achá-las nas coisas do dia a dia, nos outros e no contexto geral do grupo. Nesse meio tempo comecei a perceber que naturalmente a minha reforma íntima já estava se processando.
Durante as consultas o Benedito começou a se deslocar até onde estava o dono da peça de roupa que fora trazida para o passe, visitava o local registrado no papel e muitas das vezes, quando retornava, não falava com o consulente; deixava-me, eu Rose, a relatar ou confortar a pessoa. Isso me parecia estranho, pois na corrente ninguém comentava que já tivesse acontecido situação semelhante (nessa época o grupo era menor e tínhamos por hábito estar sempre falando e trocando informações sobre nossos protetores). E de novo, quando eu pedia explicações, o Benedito me pedia para observar, analisar e aprender. Foi um período que tive que me esforçar para não encucar e também de não ficar correndo para a frente do Pai Joaquim a cada final de trabalho. Já tinha aprendido que ele próprio iria esclarecer porque vinha sendo assim... diferente.
Fui dando tempo ao tempo e percebendo modificações na minha crença inicial, comecei a ter claro que não é a forma que é feito o trabalho, que não é o ritual em si que deve ser igual para ser certo.
Que da mesma forma que nós somos seres diferentes e únicos, no plano espiritual não é diferente. Que mais do que ficar questionando, eu deveria aproveitar a oportunidade de aprendizado, me doando com a confiança no plano Maior, que nos orienta e nos guia para o caminho da evolução. Quando tive esse entendimento foi que comecei a sentir uma certa saudade cada vez que o Benedito terminava os trabalhos. Cheguei a falar para alguns: “Tenho a impressão que o Benedito está indo embora” e, por vezes a Cândida me chamava de boba, dizendo: ele vai, mas volta.
Passaram-se 2 anos.
Recentemente pedi uma reunião com o Pai Joaquim e convidei a Cândida para participar. Queria comentar sobre tudo isso, sobre todas as formas de testes que me deparei nesses 2 anos. Testes com irmãos espirituais, com irmãos da corrente, com situações diversas na minha vida. Queria também comentar que, para minha desolação (ainda sinto um aperto no peito e não consigo evitar a emoção), o Benedito estará ausente e como ele, também o Caboclo Cobra Coral, o Exú Das Almas e o Caboclo Ogum Megê. Eles estarão na casa, mas não trabalhando comigo.
Nesse encontro fiquei conhecendo novos amigos.

A Senhora dos Ventos (assim chamarei a Iansã que se apresentou) e o Exu Capa Preta (moço formoso e que tem estado ao meu lado diariamente). Também já sei que chegará o momento de uma despedida, tal qual aconteceu com os amigos que iniciaram meu aprendizado nessa Casa de Umbanda, Casa do Pai Joaquim de Cambinda. 
Quanto a não ter me referido a eles como meus protetores, é porque o Benedito e o Cobra Coral não são meus protetores, eles são protetores dessa Casa e nela estarão sempre.
Pelo visto, muitos irão aprender com eles quando chegar a hora, assim como o Benedito disse: Simples, né filha?
E eu digo: Simples, sim.
As respostas estão dentro de nós, Eles nos auxiliam a descobrí-las.
Tente se perguntar:
- Por quê estou aqui?
- O que espero de todas essas minhas vindas a essa Casa?
- Quanto tempo quero estar por aqui?
- O quanto estou disposto a mexer na minha rotina para estar aqui?
Fiz para mim essas perguntas. Pela conversa com o Pai Joaquim, entendi que nos é ensinado na mesma proporção das nossas respostas a todas essas perguntas.
Sejamos, acima de tudo, sinceros conosco, para que possamos seguir em frente com o mínimo de ilusões.


Espero ter novas experiências de aprendizado para compartilhar com vocês.

Amigos novos acho que não vai faltar.

Do meu jeito, amo todos vocês! "

Rosemarie Saldanha Sobrinho, médium da CPJC











domingo, 12 de agosto de 2012

Banquete de Kiumba - por Douglas Fersan

Sete velas pretas, sete velas vermelhas... – conferiu mais uma vez e lembrou feliz, ao ver que uma tinha se partido ao meio, que comprou uma vela a mais de cada cor, justamente para evitar que um contratempo atrapalhasse o trabalho.
Um carro passou e ela se virou, dando as costas à estrada.  Não queria que ninguém a visse ali, na encruzilhada fazendo uma macumbinha.  Estava bastante convicta do que queria, mas não custava nada evitar ser vista, afinal o que diriam os conhecidos se fosse flagrada com aquela parafernália toda, despachando um “trabalho” na encruzilhada?
Conferiu a lista mais uma vez: as velas, as bebidas, os charutos, os cigarros...  havia outras coisas também – geralmente mal vistas pelas pessoas, como uma galinha morta, uma língua de boi, um coração...  estava tudo ali.  Não havia esquecido também os pedidos escritos num pedaço de papel.  Já que ia à encruzilhada, resolveu pedir tudo que ansiava.  Pediu que aquela vizinha intrometida se mudasse para bem longe, que a falsa amiga mordesse e língua e se desse mal no trabalho, que aquela sirigaita que lançava olhares insinuantes ao seu namorado quebrasse as duas pernas e, obviamente, que ele, o namorado, ficasse sempre ao seu lado, submisso e escravo do seu amor, cego para outras mulheres e prisioneiro de seus caprichos.  Certamente os exus e as pombogiras a ajudariam e ele seria sua propriedade exclusiva.
Sim, os exus e pombogiras me ajudarão – pensou novamente, convicta de que os estava pagando muito bem com tudo que aquilo que despejava sobre o chão da encruzilhada.
Por um momento observou novamente todo aquele material e pensou no quanto gastou com aquilo.  Além do que aquela amiga “macumbeira” havia indicado, comprou outras coisas por conta própria, pois assim acreditava que reforçaria o trabalho. Rosas e cravos vermelhos certamente seriam bem aceitos pelos espíritos, além de um perfume (barato, é verdade) e um alguidar com farofa amarela, tudo colocado sobre uma toalha vermelha.  Se eles a ajudariam com a receitinha dada pela amiga, imagine então com tudo aquilo que acrescentou...  Vendo tudo aquilo, achou que sua oferenda estava acima dos padrões financeiros usados nas macumbas que se vê por aí e adicionou alguns pedidos à sua lista.  Pediu um aumento salarial, a desventura de outro desafeto, além de reforçar o pedido – quase uma exigência – para que o namorado ficasse a seus pés.
Escondeu-se mais uma vez de outro carro que passava e colocou tudo aquilo sobre o chão.  Colocou de qualquer jeito, nem se deu ao trabalho de abrir as garrafas de bebidas – não comprou das mais baratas, fez questão de lembrar.  Foi aí que recordou que sua amiga “macumbeira” havia dito que os espíritos não conseguem abrir garrafas e nem acender cigarros ou charutos.  Tratou de realizar essa tarefa meio a contragosto e resolveu ajeitar os materiais sobre a toalha. 
Até que ficou bonito – disse baixinho.
Em seguida bateu palmas próximo às velas, conforme a amiga havia ensinado, e chamou pelo nome dos exus e das pombogiras.  Não poupou ninguém: Exu Pimenta, Tranca-Ruas, Exu Veludo, Exu da Meia-Noite, Marabô, Morcego, Maria Mulambo, Maria Padilha, Dama da Noite, Sete Saias...  nomes famosos que permeiam o universo da Umbanda e da Quimbanda.

Terminado o confuso ritual, deu três passinhos para trás, se virou de costas e tomou seu rumo, certa de que seria atendida em seus pedidos o mais breve possível.  Assim que saiu, um grupo de kiumbas, espíritos zombeteiros e trevosos da pior espécie, se aproximaram daquela bagunça que emporcalhava a via pública e passaram a se divertir com aquele banquete que lhes foi deixado.  Assim que terminasse sua festa, iriam atrás daquela tola menina, a fim de confundir seus pensamentos, dando-lhe falsas impressões de sucesso e esperanças, e em seguida paranoias e sensação de fracasso, que iriam confundir-lhe as ideias, causando medo, insônia, insegurança e toda uma gama de fatores que a fariam ouvir novamente conselhos de pessoas mal informadas, mal esclarecidas e até mal intencionadas como essa amiga “macumbeira”, e iria novamente a uma encruzilhada servir esses kiumbas obsessores vez após vez, até se tornar escrava de sua própria loucura.

Um pouco distante, os verdadeiros Exus e Pombogiras, incansáveis trabalhadores do Astral, observavam tristes àquela cena.  Os (verdadeiros) Exus da Meia-Noite, Pimenta, Marabô, Morcego, Tranca-Ruas, acompanhados das Senhoras Sete Saias, Maria Mulambo, Maria Padilha e Dama da Noite não interferiram de imediato, pois algumas criaturas não ouvem bons conselhos, não aprendem pelo caminho mais fácil, precisam trilhar o caminho da dor para que o conhecimento sobre a moral espiritual seja compreendida.  Sabiam que aquela pobre coitada teria que sofrer para deixar de ser egoísta.  Teria que sentir os efeitos do mundo espiritual para aprender a respeitá-lo.  Eles sabiam que, após toda aquela bagunça que ela chamava de “trabalho” e de “despacho”, seria perseguida pelos kiumbas e que isso sim a faria procurar um lugar sério, onde eles seriam afastados dela e enfim ela se tornaria também uma trabalhadora da espiritualidade na terra, auxiliando outras pessoas para que não cometessem o mesmo erro.  Ou então, se insistisse na sua teimosia e egoísmo em querer manipular as coisas e as pessoas com a ajuda de espíritos, acabaria se decepcionando por não atingir seus objetivos escusos e se afastaria definitivamente daquilo que ela erroneamente acreditava ser Umbanda.  Não passando pela peneira da Umbanda talvez se convertesse a uma religião da moda e passasse a se autointitular “ex-mãe-de-encosto”...

domingo, 5 de agosto de 2012

Linha do Oriente - por Grazielle Suedekun de Sá

Faz um tempinho já que eu pedi aos médiuns desta Casa que escrevessem sobre suas experiências mediúnicas, de forma que mais pessoas pudessem entender um pouquinho deste trabalho de caridade, que exige muita doação e desprendimento.
A Grazi decidiu por falar sobre sua experiência com a energia do Povo do Oriente, com o qual achava que não tinha afinidade e hoje, como ela mesma diz no texto, virou fã.
Muitos médiuns não trabalham com esta Linha justamente com esta alegação, de não ter afinidade. Talvez estejam perdendo uma grande oportunidade de aprendizado e superação.

Segue o texto:

" Pra quem não me conhece ou talvez não saiba, minha primeira incorporação foi em uma Sessão de Ciganos e tenho como característica ficar um pouco consciente, como se estivesse assistindo.
Quando comecei a trabalhar na casa, eu sempre achava que a Linha do Oriente era sem emoção (pra não chamar de tédio), nada acontecia, tudo muito “zen”, devagar... 
Com o tempo, passei a não frequentar as Sessões do Oriente, porque eu não sentia nenhuma energia que me fizesse incorporar. Então pensei: vou ceder meu espaço no salão para quem trabalha para atender as pessoas que procuram esta ajuda. E assim o fiz durante alguns meses.
Em uma certa quarta-feira, lembro como se fosse hoje, eu pensei: tô com uma vibração, preciso ir ao PJ (abreviatura para Pai Joaquim, forma carinhosa como os médiuns desta Casa se referem a ela). Hum...mas hoje é dia de Oriente... Tá bom, tá bom, eu vou. 
Chegando lá, como não conhecia minha Entidade, até por que não havia trabalhado com ela ainda, eu fui de mãos vazias para o salão. A sessão começou. E eu já pensando com quem eu ia tomar o meu passe. Após a chegada do Mestre Zarthur (indiano que trabalha com o Ricardo, dirigente da Casa), a surpresa: perdi totalmente a minha consciência. 
O Sr. Oriental chegou e me mostrou como e onde ele trabalhava. Enquanto estava incorporada, vi um tapete (tipo aqueles persa) sobre o qual ele ficava sentado, algumas pedras/cristais, fogo (vela), incenso (ar) e água que representariam os 4 elementos da natureza. O passe que ele dava era com as mãos molhadas (pingando água mesmo) e sempre passava a mão nos elementos para energizar o passe. Logo me pediu uma guia: contas rosas representando o Oriente e verdes para representar os elementos da natureza. Disse que sempre esteve e estará comigo nos tratamentos da cura espiritual.  Passou-me uma série de recomendações de estudos, incluindo o Reiki e os Chacras.  
Desde então passei a ser super fã dele, mas no começo foi difícil nosso trabalho. 
Nos primeiros atendimentos, juntamente com o Pai Joaquim, os consulentes recebiam o atendimento e ele não falava nada e eu continuava a não lembrar. Perguntei ao Pai Joaquim por que só com ele eu fico assim? Com todas as minhas outras Entidades eu fico consciente e só ele é desta forma? 
PJ respondeu: porque esta é a forma que ele encontrou de se firmar melhor com você. Deves apenas se concentrar, pois ele está no controle, ele sabe o que faz. Se isso te incomoda, converse com ele, peça para que ele lhe mostre o que está fazendo. 
Enquanto isso, eu continuava sem saber o que estava acontecendo e nem de que forma ele atuava na saúde dos consulentes. Ficava super insegura. E se a pessoa sair com mais dor do que chegou o que eu faço? Se a dor não passar? As pessoas querem saber o que elas têm e o que você fez, se elas devem fazer algo para ajudar no tratamento, porque você não fala? E ele apenas sorriu, e me disse: Você está em fase de preparação, tenha calma, respire fundo e ouvirá as respostas.  
Foi então que num certo dia, em que eu estava atendendo com a Vovó Maria Conga, ele se aproximou para um trabalho de saúde. Era um consulente que tinha problema no joelho. Ao sentir a presença dele, eu pedi: Senhor, mostre-me o seu trabalho, para que eu possa sentir mais firmeza. Então minha visão clareou, enxerguei o joelho coberto de sangue, já com alguns pontos dados, e ele estava jogando água para lavar... Bom, depois deste episódio entendo perfeitamente porque ele se manifestou desta forma, ele certamente sabia qual seria a minha reação. 
Atualmente estamos sintonizados o tempo todo, vejo apenas a energia que se manifesta na hora do atendimento. As regiões que precisam ser tratadas são na maioria das vezes representada pela cor azul ou roxa.  Em minhas mãos tem uma luz e a energia passa por mim, da cabeça até as mãos, postas no consulente. Achei uma imagem bem semelhante com as mãos que tratam o consulente:


Existe um desgaste de energia muito grande a cada tratamento espiritual realizado, por isso a preparação do ambiente é muito importante. A concentração do médium e a disposição para atender em sessões que não são de Oriente são muito maiores.
Com o tempo, fomos nos sintonizando cada vez mais. Ah! O nome dele é Zenús. Nos últimos atendimentos, eu inicio a consulta mais intuída por ele. Ele incorpora somente no momento do procedimento, após o qual ele se posiciona ao meu lado e eu transmito a mensagem para o consulente. 
Hoje eu me pergunto, será que ele não estava tentando trabalhar comigo através da intuição o tempo inteiro e como eu não conseguia me concentrar para esta Linha, ele teve que se manifestar diferente para chamar a minha atenção? Imagino que sim. 
Recentemente, na Sessão de Oriente recebi um Mago, imagino que trabalhe também com a saúde, talvez como um curandeiro. 


Lição aprendida:
Não adianta dizer para nós mesmos que estamos abertos ao aprendizado se não estamos disponíveis lá na sessão, de branco, para trabalhar. "

Grazielle Suedekun de Sá - médium da casa