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sábado, 26 de dezembro de 2015

Quem vai reger o ano de 2016, quem?

Por Cândida Camini

Então, cá estamos nós novamente, final de mais um ano, prá responder esta pergunta.
Confesso que estava pensando em não escrever mais sobre isto, mas as pessoas perguntam, insistem, então lá vai.
A Umbanda é rica em sua diversidade, a Umbanda não é codificada e justamente por isso a sua riqueza.
Num país enorme como o nosso Brasil, onde as culturas diferem tanto de um estado para outro, não poderia ser diferente com uma religião que não tem uma Bíblia, um Papa, um código de referência.
Como podemos afirmar que a regência do ano será do Orixá cujo dia da semana começa o ano, se varia tanto este dado de acordo com a região, com a cultura, com a história de cada chefe de Terreiro.
Como podemos afirmar que a regência do ano será do Orixá que tem a sua correspondência no Planeta que vai reger o ano, se este conhecimento não faz parte da cultura do Dirigente Espiritual desta Casa, nosso amado Mestre Pai Joaquim de Cambinda.
Enfim....se você olhar as postagens de anos anteriores, onde indicamos o Orixá Regente do ano, vai se perguntar: ué? mudou de opinião?
Sim, mudei, desapeguei, na verdade.
Desapeguei da necessidade de vestir a cor do Orixá na virada do ano e pautar ações, decisões, em função disto.
Porque é isto que venho aprendendo com os espíritos que dirigem esta Casa e, principalmente, com aqueles que me guiam.
Independente do ano que termina, do ano que inicia, temos que estabelecer as metas e trabalhar em cima delas.
Se o que queremos é vencer as batalhas que vimos travando incansavelmente, clamemos por Ogum: Ogunhê!
Se precisamos de coragem para as mudanças, invoquemos os ventos de Iansã: Epahey!
Se é justiça o que precisamos, Kaô Kabecile, Xangô!
O amor é o que nos faz falta, Ora iê, iê, Oxum!
Família é a nossa prioridade, Iemanjá nos abençoa. Odoyá!
Para nos proteger nos caminhos, Alupo ao Povo da Rua!
E oremos a Oxalá para que nos atenda na medida do nosso esforço e merecimento.

Mas para aqueles que ainda sentem a necessidade de vestir a cor do Orixá do ano que inicia, nós indicamos o azul de Iemanjá, já que o ano inicia em uma sexta-feira, que para nós, é dia de Iemanjá.

Quando leio textos que, em sua maioria, dizem que o ano será regido por Oxalá, eu penso:
- Ora bolas, eu penso que Oxalá está à frente da regência de todos os anos, em todos os tempos.
Mas enfim....estou desapegando disso e esta é só a minha opinião, pautada no conhecimento que absorvo dia a dia nesta Casa.
Respeito todas as demais, porque todas tem fundamento, cada uma com sua verdade.



Que o ano que em breve se inicia possa nos trazer cada vez mais conhecimento, entendimento e coragem para mudar, coragem para fazer diferente, coragem para ser feliz.

Feliz Ano Novo , na regência de todos os Orixás, comandados por Olorum!


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal de Jesus


Mais do que nunca precisamos nos lembrar que o Natal representa o nascimento de Jesus.

Mais do que nunca precisamos nos voltar para os ensinamentos que ele nos deixou.

O mundo precisa de amor, o mundo precisa de paz!

Façamos ao outro aquilo que gostaríamos que fizessem a nós.

Amemos nosso próximo como a nós mesmos.

Sejamos aquilo que tanto cobramos no outro.

São clichês, repetidos incansavelmente aqui e acolá.

Urge que coloquemos em prática.

Já estamos vivendo novos tempos.

Embora alguns ainda persistam em vibrar no negativo, a grande maioria já está vibrando a energia da nova era.

Acreditemos nisso, e aproveitemos esta noite para agradecer ao Mestre o seu exemplo e o seu amor!

Feliz Natal!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Eparrey, Bela Oyá!



Não era noite, não era manhã.
Mas ao mirar o céu,
Conduzida por estrelas,
Via-se a chegada da filha de Nanã.

Era tanto brilho, era tanta beleza.
Era tanta força presente em seu olhar,
Ventos e raios anunciavam
A chegada de OYÁ.

Era tanta emoção, era tanta alegria,
Se alguém chorava, se alguém sorria,
É porque avistava, no céu em festa
A comandante do tempo, a rainha da ventania.

Senhora do vento, Senhora do raio
Brilhante e forte tal o sol de cada manhã
Eparrei... é a Dona do tempo!
Eparrei, é a bela Iansã!

(desconheço a autoria)


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

João, Maria e a Umbanda

Por Cândida Camini

João foi apresentado a Maria por uma amiga, que muito o recomendou, dizendo que era um rapaz exemplar, honesto, trabalhador, educado, enfim....
Maria apaixonou-se imediatamente, afinal, ele era tudo isto que a amiga tinha dito e muito mais. Era atencioso, estava sempre disponível quando ela precisava e parecia ter muita cultura, também.
Começaram a namorar, mas logo Maria começou a perceber pequenos defeitos, que a foram incomodando. 
João não era perfeito.
João às vezes, parecia não lhe dar o tanto de atenção que ela achava que merecia.
João tinha formas diferentes de fazer algumas coisas, diferente dela e que ela achava errado.
João tinha muitos amigos, que gostavam verdadeiramente dele e ela não conseguia compreender como alguém assim podia angariar tantos afetos.
E Maria começou a achar que aquela amiga que os havia apresentado, não conhecia verdadeiramente João.
E terminou o namoro. E ao se afastar de João, achou por bem alertar seus amigos, aqueles que gostavam tanto dele, sobre os 'defeitos' de João.
Alguns lhe deram ouvidos e também se afastaram de João, talvez por não conhecê-lo tão bem, ou por não serem verdadeiramente amigos, ou simplesmente por descobrirem que também não tinham assim tanta afinidade com ele.
Outros, ficaram tristes por Maria estar falando assim de João, já que afinal ficaram algum tempo juntos e este tempo parecia ter sido bom, enquanto durou.
Outros ainda simplesmente respeitaram seu livre arbítrio e seguiram sua amizade com João.

Assim são alguns relacionamentos, onde muitas vezes a disputa pelo certo e o errado suplanta objetivos maiores, como o amor e o aprendizado juntos.

Onde ter razão é mais importante que ser feliz.

Qualquer semelhança com os relacionamentos entre médiuns e Terreiro, não é mera coincidência.

Existem períodos onde a paz e a união reinam, onde todos trabalham com alegria e amor pela Umbanda.

Mas de vez em quando esta mesma harmonia é colocada à prova, prova esta que é vencida com coragem, fé, união, firmeza de pensamento e ação. 


Ação na prática do bem e da caridade, sem olhar a quem, " aprendendo com os que sabem mais, ensinando aos que menos sabem e a ninguém virando as costas", como bem disse Zélio de Moraes, incorporado do Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao fundar a Umbanda no Brasil, em 1908.

Saravá Umbanda!


domingo, 15 de novembro de 2015

Dia Nacional da Umbanda

Esta foto é do nosso Ritual Anual de Amaci, feito ontem, onde 43 médiuns cumpriram com sua obrigação, que de obrigação é só nome mesmo, porque todos ali estavam com a alma cheia de amor pela Umbanda e gratos pela oportunidade de receber a energia indescritível que ali estava.

Dia este, mais do que especial, assim como o é o dia de hoje, instituído como Dia Nacional da Umbanda, por ser o dia em que, em 1908, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado em Zélio Fernandino de Moraes, declarou, sobre a Umbanda: " Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. "

E assim deveria ser. Ainda estamos um tanto distantes da humildade e igualdade, mas mais próximos do que nunca do intuito de chegar lá.

A fé que nos guia e nos mantém neste caminho é que nos dá forças para seguir em frente, assim como a certeza da proteção e orientação que temos de Pai Joaquim de Cambinda, Ogum Beira Mar, Iansã e todos os guias que dirigem e trabalham neste Terreiro.

A corrente mediúnica, unida, firme e dedicada nos impulsiona a não esmorecer diante das dificuldades que é manter um Terreiro de Umbanda, sempre na mira daqueles, encarnados e desencarnados, que não tem interesse que sigamos cumprindo esta missão.

Mas cá estamos e cá permaneceremos, enquanto Pai Oxalá assim o permitir!

Salve a Umbanda!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Os Orixás, na visão de Matheus Capra Ecker

Imagines um tempo longínquo, em que os Orixás viviam entre os homens. Um tempo, em que os elementos vivos da natureza eram materializados e conviviam naturalmente com os seres humanos. O Senhores do tempo andavam vivos...Olorum era sentido !
Imagine o Senhor que era o movimento vivo dessas forças: o Orixá Exú que era sempre acompanhado de uma bela moça, o Orixá Pomba Gira. Viviam no “entre”: entre as matas e árvores, entre os céus e as estrelas, entre o fogo e os vulcões, entre os caminhos e os destinos, entre os ventos e as chuvas, entre as águas e cachoeiras, entre o lodo e os poços , entre os mares , entre a calunga pequena e a grande, entre a vida e a morte e, principalmente, entre a luz e as trevas.
Senhor alto, de extrema beleza, coberto somente por uma negra capa como a noite, cartola alta e um garfo em sua mão esquerda. Senhora também alta, de corpo torneado, pela negra como a noite, peitos à mostra e longa saia vermelha como o sangue. Em sua cabeça uma coroa cravejada com as mais belas joias.
Andam eles a servir aos Orixás e a executar a Lei do Pai Olorum. Eram respeitados, muito temidos pelos humanos e sobretudo amados. Eram amados, pois faziam reconhecer no homem os sentimentos mais escuros e que deveriam ser mudados, para que então os humanos pudessem viver em paz.
Nesse mesmo estágio de mundo, andava um velho senhor apoiado em um cajado de prata o qual, tamanho era seu brilho, dava a impressão de ser branco. Sua roupa era também branca como as nuvens do céu. Suas mãos estavam sujas de barro, um barro escuro, o qual usava para moldar os homens conforme sua imagem e semelhança.
Era o mais amado e querido dos antigos senhores do tempo, pois lembrava aos homens da fé e principalmente do sentimento da bondade e da paz. Sempre poderia ser visto quando olhássemos para o céu, principalmente nos dias em que o sol brilhava a iluminar todo o mundo.
Olhando o céu, os homens eram lembrados da mais doce e encantadora menina que andava pelo mundo: a pequena Oxum. Apesar de ser vista nas cachoeiras e lagos, sempre a cantarolar baixinho “ Oro mi ma, Oro mi maio ...”, enquanto penteava seus lindos cabelos negros e encaracolados, era lembrada quando os raios de sol quentes e delicados acariciavam a pele dos homens a trazer calor e amor.
Suas vestes eram douradas como a cor desse mesmo sol, muito próxima a um amarelo intenso. Lembrava o homem das riquezas escondidas nas águas, riquezas essas que também estavam presentes em seu íntimo, após as mais turbulentas correntezas da vaidade e do orgulho.
Muito próximo a ela vivia um ser de incrível Luz, um jovem sempre vestido com as cores do Arco Íris. Oxumaré, que quando era visível aos homens, transmutava-se em uma cobra, lembrando-nos da necessidade de constante mudança e transformação. Assim como as estações do ano, vivia a movimentar-se e a mudar: ora dia, ora noite, ora homem, ora mulher. Era a própria renovação do Universo.
Nas florestas mais densas vivia outro jovem sempre vestido de verde, quase irreconhecível em meio às grandes árvores, era Oxóssi. Vivia da caça, da pesca, da colheita de ervas e frutos. Possuía um grande arco, que lembrava os homens, que assim como a flecha disparada por um arco em direção a caça, devemos possuir direcionamento e um propósito em nossas vidas.
No calor dos Vulcões existia um senhor alto e forte, trazia na sua cabeça uma coroa de puro ouro envelhecido. Era sempre visto em um grande trono de pedra, do qual nenhum homem conseguia se aproximar devido ao calor dos vulcões que era insuportável para a sensível pele humana. Em sua mão, era sempre visto um Oxé , um machado duplo, feito de ouro e incrustado de pedras vermelhas como o fogo vivo dos vulcões. Lembrava aos homens que a justiça era por eles inalcançada, que cabia ao Rei julgar os que mereciam e que assim como o machado que possuía dois lados, quem ora seria credor poderia estar devendo e seria julgado da mesma forma.
Nas belas praias e mares
 vivia uma Senhora de pele clara como a areia e longos cabelos lisos e pretos. Possuía seios fartos, expressão serena e acalentadora, lembrava a mãe que a todos acolhia com um abraço transmitindo a mais tranquila brisa marinha. Suas vestes eram longas e azuis como a cor do mar. Lembrava aos homens sobre a geração da vida, sobre a compaixão e que assim como as marés, a vida é feita de ciclos, ora mansa e ora agitada.
Nos caminhos, sempre próximo a uma mina de ferro, era visto um jovem impetuoso, vestido de azul e conhecido não somente por sua bravura, mas por sua incrível habilidade na confecção e manuseio de todas as armas forjadas em ferro. Lembrava aos homens que, sempre que necessário, seriam auxiliados por suas armas, amparados por seu escudo e guiados através dos caminhos em segurança para suas casas.
Nos ventos, uma bela mulher de cabelos curtos, com um leque em suas mãos era a mais intensa dos Orixás. Era conhecida pelo seu temperamento forte e objetivo, sempre em busca de conquistas e vitórias, sempre sensual e arrebatadora. Lembrava aos homens da força dos ventos, e que era necessária a luta para vencermos no dia a dia .
Nos cemitérios, um velho, sempre coberto de palha era o mais temido dos Orixás. Era conhecido como o senhor da terra, da transmutação. Seu corpo coberto de palhas lembrava aos homens que há segredos que devem permanecer ocultos, assim como esse Orixá que escondia sua verdadeira essência em meio a algo tão simples como as palhas. Senhor que vencia todas as doenças e até mesmo a própria morte.
Porém, quando o homem deixou de respeitar a esses Senhores, julgando que era maior que a própria natureza em que habitava, ao se esquecer de que advinha do próprio criador Olorum, todos os Orixás se juntaram e decidiram se retirar do mundo humano. Indo para um mundo menos denso, em que somente seres mais depurados poderiam alcançar.
Porém, antes, deixaram aos homens tudo aquilo que os lembrava: todas as qualidades existentes em seus pontos de força foram deixadas aos homens, e para que nunca imaginassem ser maior que a natureza, cada Orixá deixou aquilo que de mais assustador existia em seus Reinos.
Exú e Pomba Gira deixaram a energia que impulsionava a vida, porém que também era a própria treva, a ausência completa de luz que tanto assustava aos homens. Oxóssi manteve a fartura das matas e para que o homem recordasse dele, com a necessidade de trabalho para sua sobrevivência. Xangô deixou o fogo vivo, que embora tão necessário ao homem, se descuidado, poderia queimá-lo e até mesmo destruir tudo por onde passasse.
Ogum deixou sua coragem, mas que se descuidada virava fúria descontrolada. Iansã deixou sua força para que todos possam vencer, mas também os raios, os trovões e as tempestades para que os homens não esquecessem das inconstâncias da vida. Oxum deixou suas riquezas e rios, porém, trouxe o ímpeto da correnteza que assim como a água não poderia ser contida. Oxumaré deixou sua essência transmutável e de adaptação ao homem, mas manteve a necessidade de que tudo precisasse de complementação, um lado positivo e outro negativo. Iemanjá deixou o conforto do Mar, mas também o maior e o mais misterioso local do mundo, que através de gigantes ondas poderia devastar a terra. Obaluaê deixou a cura, mas para que ela existisse, deixou as doenças e as pestes. E finalmente, para que o mundo em que os Orixás estão fosse alcançados deixou o portal da morte.
Oxalá foi o único que ao voltar para Olorum não deixou nada de seu ser negativo. Para que os homens lembrassem dele, deixou a esperança e principalmente algo que até hoje nunca foi explicado: a fé. Para que mesmo sem poderem ver os Orixás, acreditassem em sua existência e principalmente pudessem sentir sua energia. 







Matheus Capra Ecker 

Médium da CPJC

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Desabafo de uma dirigente de Terreiro


Por Cândida Camini

Nestes cinco anos como uma das dirigentes da Casa Pai Joaquim de Cambinda, tenho acompanhado o vai e vem de médiuns na Corrente Mediúnica e confesso que já não me surpreendo mais, porque quando entra um médium novo, deslumbrado com tudo, contando histórias mirabolantes de como aqui chegou e rasgando elogios a tudo e todos, o primeiro pensamento que me vem é: “ Até quando?”
Os demais dirigentes de Terreiro sabem do que estou falando, porque isso acontece em todos.
Aliás, isto acontece em muitas situações de nossas vidas. Com um emprego novo, com um relacionamento novo, na família, enfim....
Não que eu esteja decepcionada, que não acredite em mais ninguém, não , não é isto.
Eu apenas não me iludo mais. Sou mais realista.
Se você chega no Terreiro e sabe que foi intuído e guiado por seus guias (muitas vezes até através da clarividência/clariaudiência), não pode simplesmente ao primeiro contratempo, porque vão existir, e muitos, virar as costas e sair sem uma conversa franca com o(s) dirigente(s).
A corrente mediúnica é composta por seres humanos imperfeitos, que ali estão (ou deveriam estar) pra praticar a caridade, aprender e evoluir. E disto não estão excluídos os dirigentes.
Como diz nosso amado Pai Joaquim de Cambinda, se quiséssemos trabalhar somente com aqueles que realmente estão aqui prá fazer a caridade e evoluir, ficaríamos com meia dúzia. Mas nosso maior desafio é justamente com os demais.
Então, sempre que estiver insatisfeito com algo ou alguém, procure um dos dirigentes, seja material ou espiritual, e converse com sinceridade, da mesma forma que fez quando desejou entrar para a corrente.
Se ainda assim desejar se afastar, informe aqueles que lhe receberam e conviveram com você durante o tempo que ali ficou.
Se o sentimento de insatisfação é baseado na vontade de seguir em frente, de buscar novos caminhos e você busca a orientação dos dirigentes, você está sendo guiado por seus protetores.
Mas se você sente raiva, revolta e inconformação, e simplesmente vai embora, falando mal de tudo e de todos, pode ter certeza que é o seu ego que está lhe guiando.
Eu não vejo nem converso com os espíritos. Minha mediunidade é muito baseada na intuição e nestes treze anos que trabalho com Pai Joaquim posso afirmar com absoluta certeza que trabalhamos para o bem, e ponto.

Se você acredita, ótimo. Do contrário, respeite o Terreiro que lhe acolheu e siga seu caminho.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Um conto de Umbanda, por Exu Tiriri

Em um dia qualquer, um velho senhor caminhava por uma rua já deserta. 
Próximo a ele andavam dois senhores, donos dos caminhos: Ogum Megê e Tranca Rua das Almas. Em um cruzamento, aguardavam 70 obsessores que a mando de um antigo desafeto seu queriam destruí-lo.
Ao cruzar aquele caminho, os seres passam a vibrar os sentimentos que o mandante sentia em seu íntimo: raiva, rancor, ódio, inveja, cobiça - vibrando a mais pura maldade humana.
Mas o que eles não sabiam era que aquele senhor não era qualquer um: era um filho de Umbanda! 
Seus protetores, diferentes daqueles outros seres umbralinos que serviam as trevas, não estavam com ele por obrigação, a mando e muito menos porque se compraziam de seus hábitos. Também não o acompanhavam por uma troca, estavam ali porque esse ser vibrava amor e encontravam nele instrumento para que praticassem a caridade, o amor e a verdade, sob a luz dos divinos mestres da Umbanda.
Esse senhor, servidor do mundo espiritual, que há muito tempo exercia sua fé em uma casa humilde, pequena, com as paredes de madeira e chão batido, tinha uma roupa branca, que a muito já não o era, manchada na perna direita por um charuto desse mesmo companheiro que lhe trazia lembranças saudosas. A sua roupa poderia não ser branca, mas em seu íntimo o branco era vestido com o maior esmero e reluzia todas as cores imantadas pelos sete Orixás.
Voltemos a encruzilha, para que possamos acompanhar o desfecho da nossa história: ao se deparar com aqueles seres, o médium passa a sofrer as influências das nocivas vibrações. Seus protetores, por merecimento seu, passam a intervir por aquele amigo. Imediatamente, outros guias se apresentam a convite dos nossos companheiros já conhecidos. 
Ali passam a estar não somente seu Ogum Megê, mas toda uma falange de protetores: Seu Marabô, Seu Calunga, Seu Toquinho, Seu Tiriri, Seu Veludo e claro, as mestras da magia que ali estavam. Era uma infinidade de guias que carregam o sete em seu nome: Dona Sete Saias, Senhora Sete Encruzilhadas e outras tantas, como a Pomba Gira Menina, Dona Rosa Negra e Dona Rosa Caveira.
Absortos naqueles sentimentos os obsessores não percebem a presença destes seres de luz, que imediatamente recriam o ambiente em que se encontravam: seu protegido não era mais visto e seguia seu caminho como se nada tivesse acontecido. 
O local agora relembrava um antigo Castelo Medieval, extremamente suntuoso, com suas paredes forradas por tapetes pretos e vermelhos (que carregam bordados em si estranhos símbolos, o que em terra chamamos de ponto riscado e representavam cada uma das entidades ali presentes, evidenciando a importância do trabalho), a iluminação era por conta de antigos e gigantescos castiçais espalhados pelo salão.

As senhoras dançavam no centro do salão, com vestidos dos mais formosos tecidos existentes, e com isso, pareciam hipnotizar aqueles seres, que atônitos esqueciam seus propósitos e até mesmo os sentimentos que transmitiam.
Assim, as mestras da magia cumpriam com seu propósito: descarregavam aqueles seres dos seus sentimentos trevosos de ódio, rancor, tristeza, inveja e desta forma eles passavam a vibrar os sentimentos de desejo – sentimento esse, que embora ainda em sua forma mais primitiva, seria futuramente transmutado em desejos para a evolução na tenda espiritual que pertencessem. 
 A isso tudo assistia a Dona 7 Saias sentada em um trono mais ao canto do salão.
Os “Cumprades”, atentos a cada reação dos espíritos, aguardam o momento exato, que em êxtase, esses seres deixavam se entregar aos seus mistérios e então eram conduzidos e afastados com extrema facilidade e maestria. 
Essas atividades, que para esses senhores causavam um sentimento de profunda satisfação e até mesmo alegria , era acompanhada pelo senhor Tatá Caveira , que em outro trono permanecia sentado ao lado de sua companheira.
O que poderíamos chamar de um Rei e uma Rainha daquela local, no final do trabalho (entenda-se quando todos os 70 espíritos foram já resgatados e conduzidos pelos cumprades) levantam-se e, em um comando, são servidas bebidas e frutas a todos o trabalhadores.
Diversos tipos de whisky, marafos, morangos, ameixas, maçãs... 
Em outro comando, novamente o ambiente muda: agora, de volta a uma encruzilhada.
Dessa vez, porém, na encruza em que havia sido oferecido um ebó para que fosse cumprido o trabalho por aqueles seres das trevas. 
Dona 7 e seu Caveira aproximam-se daquele trabalho feito e, com um simples sopro deste, tudo está defeito. 
Passam a atuar outras forças a partir de então: a lei justa de Pai Xangô.
Retorno àquele primeiro senhor, que por não possuir merecimento para que o trabalho fosse efetivado, retorna a sua casa. Este homem não traz nenhuma percepção do majestoso trabalho que ocorreu na esquina de sua casa. Somente um sentimento de gratidão evidenciado este, quando ao passar por sua porta, saúda os amigos que o acompanharam: “Alupô Exú! Ogunhê meu Pai! Grato pelo proteção neste dia.

Exú Tiriri, um simples servidor da luz em meio às trevas.






Matheus Capra Ecker
Médium da Casa

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Sobre o uso do celular no Terreiro

Por Cândida Camini

Que o vício do uso do celular já se instalou de forma irreversível no cotidiano das pessoas já está mais do que comprovado.
Que o celular vem interferindo de forma extremamente invasiva nas relações, também já está estabelecido.
Que o tal de WathsApp já se tornou febre, nem é preciso comentar.
Agora, não tentem me convencer que isto é modernidade, que isto facilita a vida das pessoas, que isto, que aquilo, que aquilo outro.
Não, definitivamente não.
Sim, o avanço da tecnologia é inexorável e isto deveria servir para sim, facilitar a vida das pessoas.
Das pessoas que sabem utilizar a tecnologia, com bom senso, com educação e principalmente respeitando a liberdade do outro.
Infelizmente não é o que se vê por aí e por aqui.
Já faz algum tempo que proibimos o uso do celular dentro das dependências do Terreiro, inclusive distribuindo cartazes e explicando os motivos.
Nem se faria necessário explicar os motivos, a meu ver, mas enfim...
Pergunte a você mesmo, o que busca quando procura um Terreiro de Umbanda, uma Igreja, um Centro Espírita.
Posso ajudar? 
Você busca respostas, busca auxílio para suas dores, busca paz, busca energias salutares, busca contato com seus guias, com seus entes queridos já desencarnados, só para resumir.
No exato momento que você adentra as dependências do Terreiro, as energias já estão atuando. Seus guias, seus entes queridos desencarnados, já estão fazendo contato. Não é só no momento do passe, ou consulta, que isto acontece.
Imagine tudo isto acontecendo a sua volta e você ali, mostrando as fotos do churrasco do final de semana para a amiga ao lado, conversando banalidades no WhatsApp, atualizando seu status no Facebook para #partiupassecomapombagira e por aí vai.
Pior que isto ainda é me pedir a senha do Wi-Fi !!!
Não, definitivamente não!
Atender ou fazer ligações, nem pensar!
Infelizmente este é o comportamento atual das pessoas que utilizam, e mal, o celular no seu dia a dia.
Ok, você vai dizer que está exercendo seu livre-arbítrio, afinal, quem está deixando de ganhar é você.
Novamente, não!
As energias emanadas pelo aparelho celular bloqueiam as energias que emanam do Congá em benefício de todos que ali estão. Ou seja, não é só você que perde, ou deixa de ganhar.
Estou sendo meio intransigente? Ok, quem me conhece sabe que sou mesmo, principalmente quando se trata de disciplina.
Emmanuel já dizia ao seu pupilo Chico Xavier, quando este lhe perguntava o que era preciso para cumprir com sua missão espiritual:
Três coisas, respondia ele:

- Disciplina, disciplina, disciplina.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Entenda o passe, para tirar melhor proveito dele

Por incrível que pareça, muita gente ainda não sabe como funciona o passe.
Transcrevo aqui um trecho do livro  'Conexão, uma nova visão da mediunidade' - de Maria Aparecida Martins, que no meu entender explica de maneira bem clara de que forma se dá esta transmissão de energias e qual o nosso papel nisso.


" O passe é uma ajuda de caráter externo, vem de fora.
O passe ajuda a aliviar aquelas energias que as nossas atitudes vêm criando. 

Com nossa forma de pensar, sentir e agir, criamos e nos colocamos em contato com energias de angústias, tristezas, mágoas, que são energias de baixa frequência vibratória, e o passe faz uma limpeza nisso. Limpar um resíduo, uma sujeira é diferente de deixar de produzi-la.
Essas energias causadas pela preocupação com a saúde da filha, pela irritabilidade, pela falta de paciência, pela insatisfação com a própria situação, pela valorização do próprio sofrimento, pela cultuação da vítima em si são energias mais densas.
Essas energias mais densas acabam danificando nossos centros de forças (os chacras), e a aplicação do passe, além de fazer a limpeza energética, estimula a atividade desses centros, que por sua vez, ativam nossos plexos no corpo físico. 

E a aplicação do passe ainda retira do campo áurico aquelas energias improdutivas que tiveram origem em nossa própria atividade mental e servem de ganchos para energias do mesmo teor, permitindo que se acoplem a nós, causando processos obsessivos.
O passe atua como uma injeção energética. 

O passe ajuda, mas não cura. 
A cura é um movimento de dentro para fora.
O passe atua tirando o excesso de perturbação que acumulamos, mas as perturbações são causadas pela nossa maneira de viver e de pensar. 

Se não atentarmos pra isso, para nossa forma de ver o mundo, de compreender as situações, ficaremos sempre na dependência de alguém que nos aplique passe, Reiki, cura prânica, jorei ou outra ajuda qualquer.
A cura tem o comprometimento do doente, implica numa reorganização de valores e crenças que estão servindo de base para sua maneira de pensar e agir.
É claro que ajuda do passe alivia o seu processo, mas não causa restauração na sua personalidade, na sua forma de pensar, em suas atitudes. "



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Mas será o Benedito?

Hehehehe, é sim, é mais um Benedito. Este é o que acompanha nossa amiga Soninha, idealizadora deste blog. Também contou sua história, que aqui reproduzimos prá vocês.


Ele era um moço muito forte e tinha, seguramente, mais de 1,90m. Seus braços podiam causar medo a algum desavisado que não soubesse que apesar da rude aparência, ali estava um homem de enorme generosidade e integral paciência.
 Um negro muito belo, de barba rala, olhos grandes e rasgados, com sobrancelhas erguidas e imponentes. Sorriso largo, apesar dos dissabores que a vida lhe impôs, em meio aos seus 40 anos.
 Seu traje era simples, mas não deselegante. Vestia uma bata de linho, com decote em “V”, com um cordão transpassado para amarrar. Sua calça era de algodão cru, muito alvo, na altura da canela. Como adereço, usava também um chapéu de aba média, caída. Tudo muito branco, exceto o lagdibá de casca de côco, que carregava pendurado no pescoço.
 Era impossível não notá-lo, pois tratava-se de um negro lindo e gigante, nascido na parte sul de Angola e trazido para o oeste da Bahia num navio negreiro.
 Por seu porte físico, foi empurrado para o trabalho mais pesado, na extração manual de pedras para construções. 
Era filho de Xangô, então, a pedreira lhe era ambiente familiar. Nunca, apesar das dores do açoite, perdeu seu olhar amável e a ternura de sua voz.
 Um dia, bem jovem, enxergou uma mocinha servindo a casa grande. De imediato o seu coração se manifestou. Ficara perdidamente apaixonado pela negra esbelta, de altura mediana e olhos arregalados. Entretanto, a moça servia a casa e também servia o patrão, que não se incomodava em “usá-la” diante dos olhos de quem quer que fosse.
 Nunca pode revelar seu amor a ela. Apenas podia olhá-la, de longe, enternecido de paixão. E assim viveu seus dias a adorar a moça e a sufocar seu sentimento, sem que jamais ela soubesse.
 Seu coração pródigo e sua finura com as palavras o transformou num conselheiro dos amigos da fazenda e sua fama de bom orientador corria léguas e o tornaram, naturalmente, numa liderança.
 Tal fato era visto pelo patrão, capatazes e capitães do mato, como uma influência negativa, responsabilizando-o por qualquer fuga ou rebeldia que houvesse e, por consequência, levava-o ao tronco. Tantas foram as chibatadas que lhe resultou numa grave fratura na perna direita, que nunca mais pode pisar com firmeza.
 Suas orientações, no entanto, não tinham o caráter da rebeldia, mas o daquilo que considerava justo, talvez por influência de seu Orixá. Cada vez mais era consultado pelos compartes, em todos os momentos de decisões. À noite, seu cantinho na senzala recebia filas de consulentes, em busca de uma palavra e de uma direção.
 Benedito, mesmo tomado pela exaustão do pesado trabalho com as pedras, atendia a todos, sempre paciente e tranquilo.
 Quando, finalmente, conseguia se recostar para o descanso, Rosa, nome dado pelo senhor, lhe aparecia em pensamentos. Seu coração apertava e quase sempre dormia com uma lágrima lhe escorrendo pelo pretume de seu rosto.
 A maior dor que sentia, no entanto, não era a do amor por ela. Nem era das surras incomensuráveis que recebia por suas consultas. Tampouco era a dor de vê-la tomada pelo patrão.
 Sua maior dor era a de assistir seu povo subjugado pela escravidão. A injustiça era o que mais lhe tocava a alma e o acometia de uma dor infinda. Nestes momentos, quando a dor lhe sufocava, Benedito se recolhia na pedreira e, em meio às lágrimas, pedia aos espíritos de luz que ofertassem clemência aos seus consanguíneos.
 Algumas vezes, chegava passar noites entre as pedras, conversando com seus guias. Nestas oportunidades, era comum que o povo do galpão se preocupasse, pois sempre, todas as noites, sem exceção, havia alguém que lhe procurava para se nortear.
 Só era poupado de suas consultas quando adentravam o mato para realizarem sessões de seu culto. Nestes momentos ia para o canto da gira e lá assumia de forma magistral a condição de tamboreiro.

Algumas vezes chegava a arrancar do tambor de couro de carneiro o som de trovão, que parecia que o próprio Xangô estava a preparar uma tempestade para presentear Iansã. E  normalmente, não demorava a chegar o temporal.
 Numa das noites que esteve na pedreira a renovar sua fé e buscar orientação intuitiva para orientar seu povo diante de uma revolta eminente que se forjava, foi atacado por uma cascavel, embolada no meio das pedras.
 Ainda tentou voltar para os seus, mas o veneno rapidamente se espalhou em sua corrente sanguínea e acabou tombando no meio do mato.
 Seu corpo só foi encontrado dois dias depois. Não fora a pequena perfuração em seu tornozelo direito, não haveria qualquer comprovação do que lhe houvera abatido.
 Seu corpo estava intacto, as roupas impecavelmente alvas, o chapéu cobrindo-lhe o rosto, como quem houvera deitado para um breve cochilo e, mesmo após dois dias de óbito, exalava um suave perfume de alfazema, com a qual Benedito gostava de banhar-se.





A história foi escrita por Sônia Corrêa (médium da casa), 
mas ditada e autorizada a sua publicação
 pelo  próprio Nego Benedito.







quarta-feira, 8 de julho de 2015

Quando o coração fala [9]

Mais uma linda história que nos emociona, unindo em nosso Terreiro,  'não por acaso', quatro espíritos, duas almas. Texto escrito pelo Matheus, médium da casa, sob inspiração de Pai Cipriano, Preto Velho que hoje trabalha com ele. Segue o seu relato:


"  Segue abaixo o presente que ganhei dos Negos no dia deles. Nada mais é que a história de Pai Cipriano das Almas e do  Nego Benedito, como ele mesmo gosta de ser chamado. No dia de hoje, a Umbanda celebra os Pretos Velhos. Falange do amor, da sabedoria, da humildade, da paz de espírito, do sofrimento e das lutas. Do falar chiado e simples, das metáforas e das complexidades das leis espirituais e físicas (literalmente as físicas).
Dia de Agradecer aqueles que são nossos Pais ou simplesmente os "negos" companheiros. O cheiro da fumaça do cachimbo, do café e do palheiro. Dia de relembrar a dor e a alegria desses senhores mandingueiros.
Dia que dá vontade de um abraço do Pai Cipriano ou do Nego Benedito, histórias que se cruzam, caminhos que se reencontram, o significado de uma amizade e o amor de dois médiuns. Dia de histórias desconhecidas e saudades da terra distante.
Um dos meus companheiros espirituais, um guia como são chamados na Umbanda ou para mim um amigo , atende pelo nome de Pai Cipriano. Outro companheiro é chamado pelo nome de Nego Benedito, também um guia na Umbanda e para mim um Padrinho.
Eu, Matheus e uma amiga, Eliane, quem sabe uma mãe, uma madrinha . Quatro espíritos, duas almas (se considerarmos pelo Kardecismo que alma é o espírito quando encarnado) uma única história:
Dois escravos, portanto estamos antes do dia 13 de maio de 1888. 
O primeiro, cujo nome antigo desconheço mas que agora atende por Cipriano , trabalha na casa grande. 
Escravo de sorte , apesar de todo sofrimento e dor de ter sido arrastado da mãe África em um fétido, sujo e escuro porão de um navio , agora tem alguns privilégios que outros escravos de mesma sorte não o tem. 
Um desses outros escravos é o Nego Benedito, escravo rebelde, daqueles que dava dor de cabeça aos senhores e diversão aos feitores. Dois amigos....
 Cipriano, bem tratado, com comida sempre disponível da casa grande, com algo mais parecido com uma cama do que o chão de terra da senzala . Além disso , invejado, caluniado por fofoqueiro entre os escravos que não tinham comida farta, pelos escravos que dormiam em um chão frio , de terra batida na antiga Bahia. Fosse assim bem tratado, algo que agradasse aos senhores esse escravo deveria fazer. Independente do que fosse, não era bem visto pelos seus irmãos pretos que tantas vezes recebiam comida escondida desse mesmo escravo. 
Negro sábio e astuto, sabia que não poderia perder seus benefícios (nem queria ) portanto contava com a ajuda de um dos rebeldes: o negro Benedito.
 Era simples o plano: Cipriano tinha acesso às chaves da despensa da casa grande. Uma sala grande, não muito iluminada, logo atrás da cozinha, com um tesouro para aqueles que passavam fome. Repleta de prateleiras cobertas com carne misturada em uma espécie de farinha, sal e outros condimentos que permitiam que a carne durasse mais; além disso, o que ali dava em abundância na terra como mandioca, feijão , batatas, um tesouro que os senhores não mensuravam e nem notavam sua falta. Assim, em um pequeno balaio, Cipriano colocava um pouco de tudo e entregava ao negro rebelde, que distribuía na senzala.
 Um velho negro, com um único amigo. Invejado pelos outros , detestado por seus privilégios, mas no fundo um ser de bom coração. Coração esse, que ao ver seu único amigo e companheiro ir ao tronco mais uma vez, entristeceu pela certeza da morte. Se os senhores não eram capazes de levantar o chicote, eles encontravam nos feitores, seres que se deleitavam com o sofrimento do povo negro que sangrava da mesma forma. Essa satisfação em ouvir os gritos de dor dos negros era combustível para a maldade, que as vezes não via limite.

 Em belo dia ensolarado e como sempre fazendo o pequeno plano de roubar comida da casa grande para a senzala, o negro Benedito foi pego. Qual não foi a surpresa dos senhores e a alegria dos feitores em contraponto com a tristeza e o medo de Cipriano. Sabendo do cruel destino que o esperava e das chibatadas que amarrado no troco levaria, Benedito nega-se a entregar Cipriano para os senhores, que com certeza o colocariam no tronco pela primeira vez . No tronco, enquanto recebia os açoites de um feitor , ali se estabeleceu um linha bem simples, uma linha pequena que ligava para sempre o destino de quatro almas: a linha da Lei.
 Aquele escravo , enquanto seu sangue quente escorria pelas feridas abertas ,não era menos quente suas preces aos antigos senhores (o que chamamos de Orixás). Em meio ao pranto e à dor, ciente que sua hora era chegada e em serena prece, pediu para que sua mãe Oxum o acolhesse em seus braços e acalmasse seu pranto. Sua surpresa, quando em espírito viu que Cipriano acolheu em seu colo seu corpo já falecido , tirando das correntes que o amarravam e com o mesmo intuito orava aos senhores Orixás. Oxum, percebendo a dor e o sofrimento em tantos corações , intercedeu junto a Olorum pedindo uma nova chance para os intérpretes daquele história. Benedito não só foi amparado nos braços da Mãe Oxum como pedira, mas em seu rosto sentiu as lágrimas que dos olhos dela caiam. Não eram lágrimas de dor, mas a mais pura lágrima de amor, que só a Senhora das águas doces poderia verter, e assim , unir aqueles almas para a eternidade.
 Cipriano, com o avançar do tempo, e já com 50 anos, sentindo a enorme tristeza da perda de seu único amigo e o cansaço da idade, numa tarde quente desencarnou em meio a um campo sem que nenhum dos senhores e nem mesmo seus irmãos escravos notassem sua falta. Acorda no plano espiritual desiludido: esperava encontrar os seus orixás que cultuava em segredo nos terreiros de chão de batido, quem sabe algum familiar, ou até mesmo um daqueles anjos que diziam os senhores existir. Encontrou porém um homem de capa preta, chapéu e cartola, uma bengala na mão e um charuto na boca. Aquele estranho senhor ,que em nada assemelhava-se a um anjo, com uma gargalhada disse:
-“É chegada a hora de se estabelecer e quitar seus débitos com a lei Maior. Se em vida não tivestes sofrimento, não sofrestes a dor da carne nem a fome, a sede e o trabalho incansável,  tens agora a oportunidade de trabalhar em nome do Mestre Maior, conhecendo o que há de mais escuro no ser humano. Porém, sentirás a dor como se em tua carne fosse.”
Pensando ser seu único caminho, Cipriano aceita o convite daquele senhor de Capa Preta e passa a trabalhar como um Guardião no astral, indo até as trevas que os humanos criam através de seus pensamentos e ações.
 Em um desses locais encontra um dos seus antigos desafetos : um dos feitores responsáveis por matar seu amigo Benedito ainda quando encarnado. Por determinação do alto, e sabendo que a lei deveria ser cumprida, Cipriano decide interceder por aquele espírito esquecido nas dores e aflições de sua alma. Em sincera prece, pede para que nova chance seja depositada naquele espirito.
 Lá do alto, um Negro todo de Branco a tudo assistia com dor no coração e novamente são ligadas as vida desses espíritos através da prece. São convocados os senhores cármicos responsáveis pelas encarnações e então um novo plano é traçado. A Lei da Umbanda se faz cumprir.
 Ficaria determinado que Cipriano (agora um Capa Preta) receberia novo convite de trabalho ao lado de seu amigo Benedito e assim se fez: Benedito desce até aqueles campos trevosos, encontra seu amigo e pede para que juntos sigam uma nova caminhada e um novo trabalho; serviriam à Umbanda, como Pretos Velhos, novamente lado a lado.

Pai Cipriano e Nego Benedito (com seus
'cavalos' Matheus e Eliane)
Quanto ao feitor, a ele foi dada a oportunidade de reencarnar e servir de instrumento para um Preto Velho. Também por justiça, ao senhor de escravos que ordenara o açoite do Benedito, foi concedida a mesma oportunidade de reencarne servindo a outro Preto. Assim, o feitor reencarna no corpo de um homem branco e o senhor de escravos no corpo de uma mulher, também branca. Os negros  continuam com sua cor escura como o carvão, mas agora em espíritos que se ligam a esses encarnados como guias.
Hoje esses espíritos e essas almas se encontram em um terreiro, onde cumprindo a lei, um serve de cavalo para Cipriano e o outro para Benedito. Desta forma, os Negos podem seguir juntos, como antigamente, agora servindo ao bem e amparando aqueles, que mesmo causando tanta dor estão ligados pelo amor.




13 de maio de 2014
Por Matheus Capra Ecker
Inspirado por Pai Cipriano das Almas



segunda-feira, 6 de julho de 2015

A dança e o ritmo da vida. Optchá!

Por Cigano Igor
Médium Matheus Capra Ecker

" Desde as histórias mais antigas e remotas sobre a criação do mundo e como princípio construtor das religiões é ressaltada a importância do som, da música e da dança. A dança, como todos sabemos, é para os ciganos parte de sua constituição, do seu ser. Desde o nascimento até a morte a dança está presente.
Para o hinduísmo, uma das mais remotas religiões ocidentais, o som se faz presente através do OM e a dança através do deus Shiva Nataraja. 

Conta à lenda que através de uma dança chamada de tandava esse mesmo constrói e desconstrói o mundo e em uma de suas representações este Deus está dançando, ao som do tambor (que representa a criação através do ritmo do OM), dentro de um círculo de fogo (representa os ciclos encarnatórios ou a roda da vida).
Pensemos um pouco sobre essa representação e analisando de forma ampla as filosofias ocidentais mais antigas de auto aceitação. 

Os princípios básicos de entendimento sobre o eu e o ser, sobre aceitar as imperfeições como constituintes desse princípio único de existir. 
As filosofias espiritas mais modernas por muitas vezes criticam essa postura, demonstrando através das encarnações a necessidade de melhora constante na existência e na percepção do eu,quando deveríamos relaxar e dançar com a música. 
O karma , ou o que fizemos em outras vidas, nos marcam profundamente todas as existências , nos tornando vítimas e mais ainda (através das filosofias modernas) como juízes críticos de nós mesmos.  Sentimento esse que nos impede de dançar com o ritmo. 
A dança assume o sentimento de liberdade para os ciganos, não somente no seu conceito mais amplo, mas remetendo às antigas sabedorias ocidentais a exemplo da dança do Shiva em que a todo momento, através de um ritmo constante , são construídos e descontruídos princípios, sentimentos, desejos ...
Por que não nos permitimos assim, dançar sem medo? Assumir a música, se entregar ao som (entregando-se ao eu), libertando-nos do medo, da insegurança, da culpa passada. Permitindo-se dançar sem vergonha, buscando o ritmo do som (mesmo que para tanto precisemos dançar da “nossa forma desritmada” de ser). 
Por que não dançamos contemplando os passos em falsos e a felicidade em cada batida? 
Matheus Capra Ecker
Por que não realizamos a experiência da liberdade e do ritmo constante do amor em nossos corações? 
Por que a representação artística e dançante do eu tornou-se desimportante? 
Por que buscamos coreografias ensaiadas com o todo quando devemos mostrar a beleza da nossa dança aprendida durante milênios de encarnações? "

De um amante cigano, que busca na música reconectar-se com sua essência divina, entregando-se a liberdade e ao amor.




terça-feira, 26 de maio de 2015

Optchá! Salve Sara, Padroeira do Povo Cigano



Por Sarita D'Roseo

Ó Sara, Santa Virgem que nos guia
Com seu manto de sabedoria
Conduz nosso povo
Tal qual estrela guia

Em Sara buscamos nosso acalanto
E nela depositamos toda dor e pranto
Que não devemos jamais espalhar
Pelos caminhos que para  nós são santos

Em sua bússola, os ponteiros
São sentimentos de paz, harmonia, humildade e respeito
Que conduz ao caminho que por nós será feito
Com o mais puro e sincero amor

Santo dia que acolhemos
Sara , até hoje o bendigamos
Aquela que só nos trouxe alegria
E com seu auxílio, o caminho de muitos salvamos

À Sara, cantamos nosso hino de amor
Pois ela, entre nós, tornou-se a mais bela flor
Aquela que orna o altar de Cristo, Salvador
Flor Santa, que exala o perfume do amor

Virgem Sara, rogai por nós
Junto ao Nosso Senhor
Para que sempre possamos abrir caminhos
Semeados pelo mais puro e límpido amor

A vós, Santa Sara
Oramos neste dia
Para que continue sendo
A nossa estrela guia.




quarta-feira, 13 de maio de 2015

Minha amada Preta Velha!

por Cândida Camini

Todos os dias são teus.
Todos os dias são dias de reconhecer o teu amor incondicional, a tua sabedoria e a tua paciência comigo.
Não canso de aprender contigo.
Me elevo sempre que sinto a tua energia mesclando-se a minha e reluto em te deixar ir embora.
Às vezes me representa uma Preta mais jovem, faceira com sua dança e sorriso largo.

Outras, bastante idosa, arqueada, andar difícil.
Mas sei que é sempre a mesma Maria Redonda, que prefere chegar no ponto da Maria Conga, que é mais agitado, do que no próprio ponto, mais devagar rsrsrsrsrs 
E que não raro chega em qualquer ponto que lhe possibilite dançar pelo Terreiro, cumprimentando a todos com sua risada gostosa e contagiante.
Não consigo te ver com os olhos da carne, mas meu espírito reconhece teu rosto meigo e cheio de amor. 
Meu corpo estremece de deleite ao receber teu colo de mãe, quando usa meu próprio colo prá isso.
Meu espírito se tranquiliza, quando usas da minha própria voz para conversar comigo e me aconselhar.
Que outra forma de contato eu receberia com tanta confiança e verdade, se não essa (teimosa que sou).
Neste dia, que os homens na matéria escolheram pra homenagear esta Falange, quero reafirmar nosso compromisso e, cada vez mais, a cada dia de trabalho, aprender contigo e, quem sabe ainda nesta vida, superar meus medos e me entregar a esta missão com a liberdade que agora me é concedida e que em outros tempos, tão distantes, foi negada, perseguida e condenada.

Nina
Ainda tenho que te agradecer pela Nina, tua filha linda e que também me acompanha a tanto tempo e me guia nessa missão.
Nina, esta é uma história à parte, mas como também integra a Falange dos Pretos Velhos, preciso incluir nesta homenagem.

Obrigada Pai Joaquim de Cambinda, nosso Mestre e Guia, por tê-la acolhido , criado como filha e ensinado a ela tudo que ela tenta me passar.

Agô todos os Pretos e Pretas Velhas!