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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Quando o coração fala [9]

Mais uma linda história que nos emociona, unindo em nosso Terreiro,  'não por acaso', quatro espíritos, duas almas. Texto escrito pelo Matheus, médium da casa, sob inspiração de Pai Cipriano, Preto Velho que hoje trabalha com ele. Segue o seu relato:


"  Segue abaixo o presente que ganhei dos Negos no dia deles. Nada mais é que a história de Pai Cipriano das Almas e do  Nego Benedito, como ele mesmo gosta de ser chamado. No dia de hoje, a Umbanda celebra os Pretos Velhos. Falange do amor, da sabedoria, da humildade, da paz de espírito, do sofrimento e das lutas. Do falar chiado e simples, das metáforas e das complexidades das leis espirituais e físicas (literalmente as físicas).
Dia de Agradecer aqueles que são nossos Pais ou simplesmente os "negos" companheiros. O cheiro da fumaça do cachimbo, do café e do palheiro. Dia de relembrar a dor e a alegria desses senhores mandingueiros.
Dia que dá vontade de um abraço do Pai Cipriano ou do Nego Benedito, histórias que se cruzam, caminhos que se reencontram, o significado de uma amizade e o amor de dois médiuns. Dia de histórias desconhecidas e saudades da terra distante.
Um dos meus companheiros espirituais, um guia como são chamados na Umbanda ou para mim um amigo , atende pelo nome de Pai Cipriano. Outro companheiro é chamado pelo nome de Nego Benedito, também um guia na Umbanda e para mim um Padrinho.
Eu, Matheus e uma amiga, Eliane, quem sabe uma mãe, uma madrinha . Quatro espíritos, duas almas (se considerarmos pelo Kardecismo que alma é o espírito quando encarnado) uma única história:
Dois escravos, portanto estamos antes do dia 13 de maio de 1888. 
O primeiro, cujo nome antigo desconheço mas que agora atende por Cipriano , trabalha na casa grande. 
Escravo de sorte , apesar de todo sofrimento e dor de ter sido arrastado da mãe África em um fétido, sujo e escuro porão de um navio , agora tem alguns privilégios que outros escravos de mesma sorte não o tem. 
Um desses outros escravos é o Nego Benedito, escravo rebelde, daqueles que dava dor de cabeça aos senhores e diversão aos feitores. Dois amigos....
 Cipriano, bem tratado, com comida sempre disponível da casa grande, com algo mais parecido com uma cama do que o chão de terra da senzala . Além disso , invejado, caluniado por fofoqueiro entre os escravos que não tinham comida farta, pelos escravos que dormiam em um chão frio , de terra batida na antiga Bahia. Fosse assim bem tratado, algo que agradasse aos senhores esse escravo deveria fazer. Independente do que fosse, não era bem visto pelos seus irmãos pretos que tantas vezes recebiam comida escondida desse mesmo escravo. 
Negro sábio e astuto, sabia que não poderia perder seus benefícios (nem queria ) portanto contava com a ajuda de um dos rebeldes: o negro Benedito.
 Era simples o plano: Cipriano tinha acesso às chaves da despensa da casa grande. Uma sala grande, não muito iluminada, logo atrás da cozinha, com um tesouro para aqueles que passavam fome. Repleta de prateleiras cobertas com carne misturada em uma espécie de farinha, sal e outros condimentos que permitiam que a carne durasse mais; além disso, o que ali dava em abundância na terra como mandioca, feijão , batatas, um tesouro que os senhores não mensuravam e nem notavam sua falta. Assim, em um pequeno balaio, Cipriano colocava um pouco de tudo e entregava ao negro rebelde, que distribuía na senzala.
 Um velho negro, com um único amigo. Invejado pelos outros , detestado por seus privilégios, mas no fundo um ser de bom coração. Coração esse, que ao ver seu único amigo e companheiro ir ao tronco mais uma vez, entristeceu pela certeza da morte. Se os senhores não eram capazes de levantar o chicote, eles encontravam nos feitores, seres que se deleitavam com o sofrimento do povo negro que sangrava da mesma forma. Essa satisfação em ouvir os gritos de dor dos negros era combustível para a maldade, que as vezes não via limite.

 Em belo dia ensolarado e como sempre fazendo o pequeno plano de roubar comida da casa grande para a senzala, o negro Benedito foi pego. Qual não foi a surpresa dos senhores e a alegria dos feitores em contraponto com a tristeza e o medo de Cipriano. Sabendo do cruel destino que o esperava e das chibatadas que amarrado no troco levaria, Benedito nega-se a entregar Cipriano para os senhores, que com certeza o colocariam no tronco pela primeira vez . No tronco, enquanto recebia os açoites de um feitor , ali se estabeleceu um linha bem simples, uma linha pequena que ligava para sempre o destino de quatro almas: a linha da Lei.
 Aquele escravo , enquanto seu sangue quente escorria pelas feridas abertas ,não era menos quente suas preces aos antigos senhores (o que chamamos de Orixás). Em meio ao pranto e à dor, ciente que sua hora era chegada e em serena prece, pediu para que sua mãe Oxum o acolhesse em seus braços e acalmasse seu pranto. Sua surpresa, quando em espírito viu que Cipriano acolheu em seu colo seu corpo já falecido , tirando das correntes que o amarravam e com o mesmo intuito orava aos senhores Orixás. Oxum, percebendo a dor e o sofrimento em tantos corações , intercedeu junto a Olorum pedindo uma nova chance para os intérpretes daquele história. Benedito não só foi amparado nos braços da Mãe Oxum como pedira, mas em seu rosto sentiu as lágrimas que dos olhos dela caiam. Não eram lágrimas de dor, mas a mais pura lágrima de amor, que só a Senhora das águas doces poderia verter, e assim , unir aqueles almas para a eternidade.
 Cipriano, com o avançar do tempo, e já com 50 anos, sentindo a enorme tristeza da perda de seu único amigo e o cansaço da idade, numa tarde quente desencarnou em meio a um campo sem que nenhum dos senhores e nem mesmo seus irmãos escravos notassem sua falta. Acorda no plano espiritual desiludido: esperava encontrar os seus orixás que cultuava em segredo nos terreiros de chão de batido, quem sabe algum familiar, ou até mesmo um daqueles anjos que diziam os senhores existir. Encontrou porém um homem de capa preta, chapéu e cartola, uma bengala na mão e um charuto na boca. Aquele estranho senhor ,que em nada assemelhava-se a um anjo, com uma gargalhada disse:
-“É chegada a hora de se estabelecer e quitar seus débitos com a lei Maior. Se em vida não tivestes sofrimento, não sofrestes a dor da carne nem a fome, a sede e o trabalho incansável,  tens agora a oportunidade de trabalhar em nome do Mestre Maior, conhecendo o que há de mais escuro no ser humano. Porém, sentirás a dor como se em tua carne fosse.”
Pensando ser seu único caminho, Cipriano aceita o convite daquele senhor de Capa Preta e passa a trabalhar como um Guardião no astral, indo até as trevas que os humanos criam através de seus pensamentos e ações.
 Em um desses locais encontra um dos seus antigos desafetos : um dos feitores responsáveis por matar seu amigo Benedito ainda quando encarnado. Por determinação do alto, e sabendo que a lei deveria ser cumprida, Cipriano decide interceder por aquele espírito esquecido nas dores e aflições de sua alma. Em sincera prece, pede para que nova chance seja depositada naquele espirito.
 Lá do alto, um Negro todo de Branco a tudo assistia com dor no coração e novamente são ligadas as vida desses espíritos através da prece. São convocados os senhores cármicos responsáveis pelas encarnações e então um novo plano é traçado. A Lei da Umbanda se faz cumprir.
 Ficaria determinado que Cipriano (agora um Capa Preta) receberia novo convite de trabalho ao lado de seu amigo Benedito e assim se fez: Benedito desce até aqueles campos trevosos, encontra seu amigo e pede para que juntos sigam uma nova caminhada e um novo trabalho; serviriam à Umbanda, como Pretos Velhos, novamente lado a lado.

Pai Cipriano e Nego Benedito (com seus
'cavalos' Matheus e Eliane)
Quanto ao feitor, a ele foi dada a oportunidade de reencarnar e servir de instrumento para um Preto Velho. Também por justiça, ao senhor de escravos que ordenara o açoite do Benedito, foi concedida a mesma oportunidade de reencarne servindo a outro Preto. Assim, o feitor reencarna no corpo de um homem branco e o senhor de escravos no corpo de uma mulher, também branca. Os negros  continuam com sua cor escura como o carvão, mas agora em espíritos que se ligam a esses encarnados como guias.
Hoje esses espíritos e essas almas se encontram em um terreiro, onde cumprindo a lei, um serve de cavalo para Cipriano e o outro para Benedito. Desta forma, os Negos podem seguir juntos, como antigamente, agora servindo ao bem e amparando aqueles, que mesmo causando tanta dor estão ligados pelo amor.




13 de maio de 2014
Por Matheus Capra Ecker
Inspirado por Pai Cipriano das Almas



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