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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Mas será o Benedito?

Hehehehe, é sim, é mais um Benedito. Este é o que acompanha nossa amiga Soninha, idealizadora deste blog. Também contou sua história, que aqui reproduzimos prá vocês.


Ele era um moço muito forte e tinha, seguramente, mais de 1,90m. Seus braços podiam causar medo a algum desavisado que não soubesse que apesar da rude aparência, ali estava um homem de enorme generosidade e integral paciência.
 Um negro muito belo, de barba rala, olhos grandes e rasgados, com sobrancelhas erguidas e imponentes. Sorriso largo, apesar dos dissabores que a vida lhe impôs, em meio aos seus 40 anos.
 Seu traje era simples, mas não deselegante. Vestia uma bata de linho, com decote em “V”, com um cordão transpassado para amarrar. Sua calça era de algodão cru, muito alvo, na altura da canela. Como adereço, usava também um chapéu de aba média, caída. Tudo muito branco, exceto o lagdibá de casca de côco, que carregava pendurado no pescoço.
 Era impossível não notá-lo, pois tratava-se de um negro lindo e gigante, nascido na parte sul de Angola e trazido para o oeste da Bahia num navio negreiro.
 Por seu porte físico, foi empurrado para o trabalho mais pesado, na extração manual de pedras para construções. 
Era filho de Xangô, então, a pedreira lhe era ambiente familiar. Nunca, apesar das dores do açoite, perdeu seu olhar amável e a ternura de sua voz.
 Um dia, bem jovem, enxergou uma mocinha servindo a casa grande. De imediato o seu coração se manifestou. Ficara perdidamente apaixonado pela negra esbelta, de altura mediana e olhos arregalados. Entretanto, a moça servia a casa e também servia o patrão, que não se incomodava em “usá-la” diante dos olhos de quem quer que fosse.
 Nunca pode revelar seu amor a ela. Apenas podia olhá-la, de longe, enternecido de paixão. E assim viveu seus dias a adorar a moça e a sufocar seu sentimento, sem que jamais ela soubesse.
 Seu coração pródigo e sua finura com as palavras o transformou num conselheiro dos amigos da fazenda e sua fama de bom orientador corria léguas e o tornaram, naturalmente, numa liderança.
 Tal fato era visto pelo patrão, capatazes e capitães do mato, como uma influência negativa, responsabilizando-o por qualquer fuga ou rebeldia que houvesse e, por consequência, levava-o ao tronco. Tantas foram as chibatadas que lhe resultou numa grave fratura na perna direita, que nunca mais pode pisar com firmeza.
 Suas orientações, no entanto, não tinham o caráter da rebeldia, mas o daquilo que considerava justo, talvez por influência de seu Orixá. Cada vez mais era consultado pelos compartes, em todos os momentos de decisões. À noite, seu cantinho na senzala recebia filas de consulentes, em busca de uma palavra e de uma direção.
 Benedito, mesmo tomado pela exaustão do pesado trabalho com as pedras, atendia a todos, sempre paciente e tranquilo.
 Quando, finalmente, conseguia se recostar para o descanso, Rosa, nome dado pelo senhor, lhe aparecia em pensamentos. Seu coração apertava e quase sempre dormia com uma lágrima lhe escorrendo pelo pretume de seu rosto.
 A maior dor que sentia, no entanto, não era a do amor por ela. Nem era das surras incomensuráveis que recebia por suas consultas. Tampouco era a dor de vê-la tomada pelo patrão.
 Sua maior dor era a de assistir seu povo subjugado pela escravidão. A injustiça era o que mais lhe tocava a alma e o acometia de uma dor infinda. Nestes momentos, quando a dor lhe sufocava, Benedito se recolhia na pedreira e, em meio às lágrimas, pedia aos espíritos de luz que ofertassem clemência aos seus consanguíneos.
 Algumas vezes, chegava passar noites entre as pedras, conversando com seus guias. Nestas oportunidades, era comum que o povo do galpão se preocupasse, pois sempre, todas as noites, sem exceção, havia alguém que lhe procurava para se nortear.
 Só era poupado de suas consultas quando adentravam o mato para realizarem sessões de seu culto. Nestes momentos ia para o canto da gira e lá assumia de forma magistral a condição de tamboreiro.

Algumas vezes chegava a arrancar do tambor de couro de carneiro o som de trovão, que parecia que o próprio Xangô estava a preparar uma tempestade para presentear Iansã. E  normalmente, não demorava a chegar o temporal.
 Numa das noites que esteve na pedreira a renovar sua fé e buscar orientação intuitiva para orientar seu povo diante de uma revolta eminente que se forjava, foi atacado por uma cascavel, embolada no meio das pedras.
 Ainda tentou voltar para os seus, mas o veneno rapidamente se espalhou em sua corrente sanguínea e acabou tombando no meio do mato.
 Seu corpo só foi encontrado dois dias depois. Não fora a pequena perfuração em seu tornozelo direito, não haveria qualquer comprovação do que lhe houvera abatido.
 Seu corpo estava intacto, as roupas impecavelmente alvas, o chapéu cobrindo-lhe o rosto, como quem houvera deitado para um breve cochilo e, mesmo após dois dias de óbito, exalava um suave perfume de alfazema, com a qual Benedito gostava de banhar-se.





A história foi escrita por Sônia Corrêa (médium da casa), 
mas ditada e autorizada a sua publicação
 pelo  próprio Nego Benedito.







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